Regressão Psíquica em Tempos de Covid-19

Atualizado: Abr 27






O fluxo da energia psíquica apresenta dois movimentos, sendo esses movimentos a progressão e a regressão. Na progressão a energia do inconsciente flui para a consciência de forma a atender as necessidades de adaptação do meio externo. Por outro lado, na regressão a energia flui para o inconsciente de forma a atender as necessidades internas.

Estas energias normais do funcionamento psicológico foram violentamente alteradas nos últimos tempos. Muitos atribuem as culpas ao recente surto da doença COVID-19, contudo é a nossa escassa preparação que permite o aumento do embotamento psicológico geral a nível social.


É verdade que ao longo da pandemia fomos obrigados a responder a um novo desafio. Nesse desafio enfrentamos um micro inimigo com potencialidades enormes e fomos acometidos a grandes mudanças que nos obrigaram a ficar confinados ao nosso lar. Apesar de inicialmente muitas pessoas acharem que este confinamento ia ser o momento crucial para se reunirem consigo próprias, vendo isso como algo positivo, foi daí que emergiu o verdadeiro problema.


Não estamos preparados para convivermos connosco na nossa solitude.

Este confinamento criou uma violenta troca no fluxo natural da sociedade do cansaço e das aparências. Uma sociedade voltada completamente para fora que vive ingenuamente na busca contínua de responder às demandas da melhor máscara e alienar-se de si mesma. Chega de algum modo a ser irónico o paradoxo. Falamos tanto em avanço que tomamos o progresso como o único sentido da existência, onde somos completamente exímios nessa demanda. Contudo por vezes convém relembrar que as sociedades com maior progresso são também as que mais sofrem a nível psicológico (e.g., Japão).


Nesse sentido somos peritos na Progressão. A Progressão é o movimento psíquico que nos leva "para a frente", já que é o processo que nos permite adaptar e avançar face aos desafios do dia-a-dia. Mas quem é que nesses desafios do dia-a-dia nunca levou tarefas para casa?


Enquanto esses desafios não geram nenhum conflito acabamos por adiar a necessidade de os confrontar e por isso vamos acumulando essas nossas tarefas, lá no escritório da nossa mente, na dispensa da memória esquecida, ou até debaixo do tapete da nossa atenção (no fundo, onde der mais jeito).


Quando estamos perante um conflito e a progressão se torna impossível, nós não podemos avançar porque nos deparamos com um bloqueio. Assim acontece também com a energia psíquica que, encontrando um determinado bloqueio, tende a detetar uma saída através da regressão. Isto não é algo ininteligível, já que quando estamos perante um problema irresoluto nós nos afastamos do computador e voltamos mais tarde quando se faz Eureka a fim de o resolver. Já os alunos de matemática conhecem o mecanismo, compreendendo que é melhor dormir sobre o problema quando ele aparenta ser de enorme complexidade.


Na impossibilidade de nos debatermos contra o enorme exército caótico do corona vírus, a única saída foi o confinamento. No entanto este confinamento apenas se moveu pelo isolamento físico, porque a psique manteve o mesmo mindset progressivo. Tal como um cartoon, por exemplo o Bip-Bip (papa léguas) que move mais rápido o corpo do que a alma fazendo aquela aparência dissociativa nos desenhos. Dissociação essa que vivemos através de várias vertentes. Seja porque o corpo não segue as exigências da mente, onde a mente é insuficiente face às nossas expectativas e as nossas expectativas são frustradas pela incerteza do futuro.


Além disso vemos pessoas que afirmam estar a desfrutar deste momento para retiro pessoal e aumento espiritual, mas esse seu exercício nunca deixa de estar ligado a uma vinculação extrovertida baseada na cultura do like. Promovendo-se através das redes sociais e pautando o seu retiro pessoal e aumento espiritual pelo que estiver em voga. Com efeito (ou na verdade sem efeito), a regressão não chega, portanto, a ser alcançada porque a pessoa não está em união consigo mesma. Desta forma os níveis de ansiedade aumentam e são sentidos através da tensão que acompanha o corpo.


É neste momento que a pessoa se sente perdida e nem sabe muito bem o porquê. A verdade é que enquanto o ego não se voluntariar realmente ao confinamento, não se poderá permitir a um upgrade na sua estrutura da personalidade. Para isso terá de suportar a solitude, através do silencio e procurar ‘humildar-se’ não exigindo de si, suportando o tempo, a vulnerabilidade, o vazio. Perscrutar o corpo e o que ele tem para dizer. Posteriormente ouvir o inconsciente, através das falas implícitas deste durante a manhã, e as suas gravuras ancestrais ao longo da noite.


Fica o conselho.



João Diogo Vedor



Autor: João Diogo Vedor

Psicólogo Clinico e da Saúde especialista em Psicologia Analítica

Membro da Direção na Academia Internacional de Psicologia Analítica

Co-fundador do JungLab

Contacto: joaodiogovedor@iaap.pt

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