• jcvazfurtado

O Sapato




"O sapato que se ajusta a um homem aperta o outro; não há nada para a vida que funcione em todos os casos”. Carl Jung

O sapato projeta-se ao chão de tal forma que raramente olhamos para os nossos pés quando caminhamos, raramente nos preocupamos com os aspetos mais inferiores e inconscientes da nossa personalidade e, como esta se dinamiza no decorrer da caminhada.

Olhar para os sapatos (e aqui incluem os pés) é também olhar para cima e o cérebro, melhor, para a totalidade da pessoa.

Para o analista junguiano calçar o sapato do outro é perceber onde ele aperta, onde afrouxa ou ainda como se sente neste sapato. Por respeito ao outro é ‘começar por baixo’, perceber como ele chegou até a consulta e qual foi o seu caminho.

Lembro de um trecho de uma das crónicas de Rubem Alves do menino engraxate que conhecia seus clientes apenas de olhar para os sapatos, nem sequer era preciso emitir uma palavra para compreender exatamente quais eram as suas necessidades.

Assim é também a mira do analista junguiano, ver aquilo que o outro realmente é. E então o cliente nos diz que agora se sente acolhido, compreendido, e que já não se encontra perdido, pois descobriu o artesão certo para o seu sapato.

Esta é a meta da individuação, os contos e mitos assim também o demonstram do ponto de vista simbólico, antes de prosseguir na sua jornada pessoal, há que encontrar o seu sapato e individuar.

Os pés desejam sapatos feitos a medida por mãos artesãs. Nada mais que o desejo de ser acolhido no seu ventre, protegido e amado!

O que pensar então num processo terapêutico…

Os sapatos estão em estreita interação com os pés, um não está dissociado do outro, e sendo assim, apontam para a interação de persona e sombra. Podem de um lado indicar o desejo e a impulsividade. Do outro, o sacrifício, a negação e as repressões.

A personalidade social, a persona, à semelhança do sapato, é como uma segunda pele que protege o seu caráter interno, o pé. Daí identificarmo-nos mais facilmente com o que é visível, a parte mais consciente da personalidade construída laboriosamente pelas mãos. É a marca pessoal que torna a pessoa uma personagem social.

Muitas vezes esta marca vista pelos olhos do outro pode representar uma coisa justamente oposta aquilo que o próprio sujeito vê. Para os outros o vício, para o próprio a virtude!

O sapato também pode representar a contraparte perdida, definida por Jung de anima ou animus. É como se passássemos a vida a procura daquela metade que encaixa perfeitamente nos pés e, por ventura, permite que eu seja único, cujo andar integrado, coeso e seguro atinge a meta: eu mesmo! O caminhar lá fora é só expressão do caminhar cá dentro.

O artesão junguiano é um ‘entusiasta’ do símbolo, que revitaliza, inspira, humaniza e fecunda. A sua arte consiste no apuramento da sua escuta, através de uma conversa demorada, que liberta a imaginação criativa e viva da presença fascinante do símbolo. Por outro lado, aceita também a sua sombra, oculta na atitude segura e arrogante sobre a exatidão da interpretação simbólica. Esta atitude dogmática, esterilizante e intelectualmente superior, é típica do sapateiro que tem de encaixar o pé ao seu molde, independentemente dele estar apertado ou largo, pois não há a paciência necessária para pés singulares.

A fixação poderia ser representada por aquele indivíduo que se recusa a trocar de sapato, pois mantém a mesma atitude rígida e inalterada da forma com que traça o seu caminho. Assim, também é o psicólogo que rejeita trocar de sapato e ver apenas o ponto de vista de sua teoria.

O homem que não abandona o seu sapato velho é o mesmo que não abandona a ideia que tem sobre si mesmo. É uma pessoa que nega a natureza fluida e inacabada de si mesmo. É uma pessoa que agarra o seu ego com unhas e dentes! Só a ideia de abandonar o sapato, como a todos os outros que deverão vir, é abrir uma fenda interior para o mistério daquilo que o próprio desconhece em si mesmo. Este processo feito de morte e renascimento é tão natural como o envelhecer das células e sua renovação, ou ainda como o pássaro que troca de plumagem… Mas tudo isso se calhar não é consciente quando vai se trocar de sapato e escolhe um psicólogo. Raramente alguém chega a uma consulta e diz assim: - Ajude-me a libertar dos padrões enrijecidos do passado, quero encontrar um sapato que se ajuste a minha nova medida.

Dito isso parece simples, troquemos os nossos sapatos! Mas o facto é que velhos hábitos parecem sempre retornar…

Podem até vir com mais desculpas, mas por mais que tentemos nos livrar dos sapatos velhos, por alguma razão eles voltam. Há uma espécie de submissão à compulsão. Outros interpretariam este fenómeno como um Karma ou um destino. Mas no fundo todos sentem a mesma coisa, mesmo que de forma fragmentária, é preciso evoluir, transformar. Reparem que a tal ‘roda do destino’ normalmente não é algo de imediato. É um processo silencioso, que aos poucos vai se movimentando, até o dia que se converte, por exemplo, num sintoma. Os velhos hábitos, os sapatos cheios de desculpas já quase não cabem no pé, mas mesmo apesar do sofrimento, há que manter a postura e andar em linha reta.

Libertar-se de seus sapatos é um ato tão importante que não basta só olhar para o espelho novo, mas ao mesmo tempo, olhar para dentro e reparar do que é que foram feitos os sapatos velhos e, antes mesmo de jogá-los fora como um objeto que já não lhe pertence, à semelhança dos mecanismos dissociativos, é preciso compreender que eles voltam com toda sua carga destrutiva, patológica. A não ser, é claro, que sejamos capazes de reciclar, melhor, circular e caminhar com os próprios pés…





João Carlos Furtado, M.S.,

Professor da IAAP|pt e Co-Fundador JungLab

Psicólogo Clínico e da Saúde do Aces Alto Ave/ Ars Norte (desde 2006 até à actualidade) e em Gabinete Privado há 23 anos (1995 até à actualidade).

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