HSI #6 Histórias que Contam o Inconsciente - João Diogo Vedor



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Transcrição do Vídeo:


O inconsciente pode ser analisado através de diversas lentes. Desde a física, às neurociências, até à filosofia e mais especificamente, a psicologia como epistemologicamente diferenciada da metafísica. No fundo todas terão as suas conceções válidas, mas também as suas limitações. Contudo, enquanto clínico, foco me sempre na importância do fenómeno face à experiência subjetiva das pessoas que atendo.


Compreendo assim a importância da abordagem fenomenológica de forma a valorizar a experiência dos indivíduos. Não da forma neurótica como Hurssel queria transformar a abordagem, mas na linha que Carl Jung defendeu, influenciado pela filosofia Kantiana, onde os fenómenos como se apresentam à consciência são apenas a sua aparência e não a coisa em si.


Poderíamos, portanto, ser virtuosos ao ponto de representar o inconsciente no seu status quó como o campo dos objetos em si. Sendo que não seria bizarro conotar o material que emerge do inconsciente na relação com a consciência como a aparência dessas coisas em si.


Para não complexificar demasiado, porque esse não é o objetivo desta apresentação nem ser demasiado pretensioso, parece-me importante mencionar que muito provavelmente nada é como realmente pensamos que é.


Abrindo um pequeno parêntesis, podemos, tal como Jung, admitir a diferenciação dos conteúdos completamente inconscientes tal como eles são (e.g., os arquétipos) e os fenómenos como eles se apresentam à consciência (e.g., imagens arquetípicas).


O que eu quero dizer é que muito provavelmente da nossa experiência existirão sempre elementos que não iremos conseguir compreender na totalidade. O que não quer dizer que não possamos criar hipóteses possíveis para determinado fenómeno. É aí que entra a parte empírica da Psicologia Analítica.


Por exemplo, é mais do que sabido que ninguém nasce totalmente uma tábula rasa e, por isso mesmo, muitas vezes ficamos admirados com os ‘dons’ de determinada pessoa. Contudo, numa visão muito próxima, podemos entender que aquele indivíduo tomou a arte de seu pai e por isso “filho de peixe sabe nadar” ou então “quem sai aos seus não degenera”.


É aí que começamos a conceber determinadas relações que podem criar a base que sustenta as hipóteses psicológicas. É também aqui que a experiência intercepta a teoria e vice-versa. Porém o psicólogo não deve negar a experiência vivida pelo sujeito e a forma como este a significa.


Pelo menos não no sentido em que Freud parecia negar. Afinal, tal como Jung refere, apesar de uma atitude empírica incontestável, Sigmund Freud concebeu a sua teoria como sine qua non com o método, como se o fenómeno psíquico tivesse de ser analisado apenas por determinado prisma para ter valor. Como é o caso da teoria da sexualidade, criando aqui uma ciência da interpretação.


É também nisto que se diferencia a Psicologia Analítica, concedendo-lhe um cariz dinâmico e pragmático. Nesta ótica, se queremos perceber o fenómeno de forma mais adequada temos de alargar a nossa capacidade interpretativa. Tal é referido também por Jung (2003) que toda a ciência natural é descritiva quando não pode ser mais experimental, não deixando de ser ainda assim científica.


Apesar da Psicologia Analítica ter a sua variante experimental, como no caso do teste de associação de palavras que deu origem ao trabalho acerca dos complexos. É com uma atitude dinâmica e abrangente que ela pode compreender o indivíduo e a sua condição psicológica. Sem negar, portanto, o contributo de outras disciplinas como sociologia, a antropologia, a etologia, a biologia, a semiótica entre outras.


É esse pragmatismo que dá margem à teoria e ao processo analítico e é isso que eu pretendo trazer neste episódio.


Hoje quero falar da expressão do inconsciente através das histórias dos seus agentes. Existem histórias que vamos experienciando na nossa vida e que vão automaticamente formando os seus esquemas. Por isso nada melhor do que começar pela minha.


Por exemplo, uma das memórias que tenho mais antigas da minha existência leva-me para junto da rua da casa antiga da minha avó paterna. É uma das minhas primeiras memórias sobre a qual tenho o completo registo de todos os sentidos porque o momento assim o incentivava. Lembro-me de estar a passear com a minha mãe em cima de uma mota elétrica que os meus pais tinham adquirido para mim.


Recordo-me que o sol brilhava intensamente e sou até capaz de recuperar a minha perspetiva de primeira pessoa a sentir a velocidade da pequena mota, a tremer devido ao atrito das rodas no paralelo e o quão a minha mãe me incentivava para a acompanhar, aproximando-se de mim com ternura e um sorriso rasgado, provocando em mim a segurança necessária para me motivar a acompanhá-la.


Engraçado também como funciona a nossa memória autobiográfica. Também ela sendo dinâmica, já que em jeito de recordação, parece que consigo manter o plano de 3ª pessoa e ver aqueles dois a conviverem num dia feliz e marcante na construção mental daquele jovem aspirante a algo incerto. Algo não tão incerto, foi certamente a semente semeada nesse momento. Pois lembro-me de mais tarde desenvolver um fascínio por motas. Cativaram sempre a minha atenção. Contudo, nunca percebi se tinha a ver com o objeto em si, ou se lhe tomei o gosto devido à experiência favorável que tive e fui tendo a partir daquele momento onde estava também presente uma figura basilar da psique que é a nossa mãe.


Tal como António Damásio, o neurocientista português explica, nós vivemos sistematicamente a mapear a nossa experiência em forma de marcadores somáticos. Esses marcadores funcionam na base da consciência e utilizam a palete de emoções para colorir os dados da nossa experiência.


Existem experiências positivas que podemos marcar a amarelo por exemplo para os optimistas, para os esperançosos talvez a verde. Existem experiências violentas que marcamos a vermelho talvez e mesmo para os libidinosos o vermelho vivo e carnal pode ser uma cor adequada. As experiências negativas, por serem fortemente prescindíveis, marcamos a negro e então a nossa experiência vai pela sombra.


Abro um novo parêntesis. De alguma forma este pequeno exemplo manifesta o quão sinestésicos somos e de que forma a própria experiência sensorial da cor vinculada a determinadas imagens pode criar a raiz do símbolo. De tal modo este padrão pode ser tão facilmente vivido por outras pessoas que até podemos entendê-lo de forma coletiva.


Fechando esse parêntesis. Creio que entendermos uma parte de nós próprios é recapitularmos uma leitura profunda da nossa narrativa ou das nossas narrativas. Ao longo dessa descida da escadaria da nossa existência, podemos ir mapeando novamente de forma top-down, desde o mundo da consciência às moradas perdidas da nossa memória e do nosso inconsciente pessoal. Dessa forma podemos acender uma bruxuleante vela nos recônditos mais profundos da nossa mente e iluminar algo que jazia na nossa sombra.


É pelo meio dessa introspeção que me tento analisar, apesar dos muitos possíveis vieses, e é sempre essa provocação que lanço aos meus alunos e pacientes. Tal como um desafio que proponho sempre, ler a biografia dos nossos grandes génios. Se possível as autorizadas ou as autobiografias porque existe também muita falsidade para aí publicada.

Creio assim que entendermos uma pequena parte da mente dos grandes génios é estudarmos as suas contribuições diretas e, posteriormente, pegarmos numa biografia e imaginarmos relações possíveis relativamente às suas vivências e às suas espantosas hipóteses.


É esse o desafio que trago neste mesmo episódio. Para isso vou contar algumas histórias breves de alguns génios da nossa humanidade. Algumas delas desconhecidas do grande público, mas podemos fazer jus ao nome da série e numa versão romântica tratar essas histórias como secretas.


Autor: João Diogo Vedor

Psicólogo Clinico e da Saúde especialista em Psicologia Analítica

Membro da Direção na Academia Internacional de Psicologia Analítica

Co-fundador do JungLab

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